Sobre lutas e causas indígenas


João Baptista Pimentel Neto*

Quase sempre, e invariavelmente, esta coluna aborda temas relacionados à cultura, em especial, ao setor do audiovisual. Mas hoje será diferente. Hoje, quero usar este espaço para falar de uma outra causa e de outra luta a qual me dedico também há muitos anos: viu falar das causas e lutas dos povos indígenas brasileiros e dos demais povos originários das Américas.

O que me levou a isso foi o acompanhamento da campanha de adesões ao Manifesto lançado pelo EnDoc Século XXI / Encontro de Documentaristas Latino Americanos e Caribenhos em repúdio ao assassinato do jovem cineasta colombianoYamid Bailarín Suescun, que no Brasil está sendo divulgado pelo CBC / Congresso Brasileiro de Cinema e o fato que mesmo diante da gravidade do que é ali relatado, o documento recebeu um número quase que insignificante de adesões em relação às recebidas em dezenas de outros Manifestos sobre temas de muito menor importância que coordenei ou ajudei coordenar nos últimos anos.

E daí, de minha constatação de que quanto mais milito pela causas indígenas, mais cresce a minha indignação não só com os problemas relacionados ao tema, mas também com a falta de atenção que a maioria, inclusive daqueles que se dizem militantes, dedicam a este tema.

E mais me convenço que a maioria das pessoas não tem a menor noção do seu significado e sua importância no contexto de um mundo globalizado que caminha a passos largos para uma catástrofe ambiental e humana. E que isso é realmente trágico e nem um pouco cômico!

Confesso que fico cada vez mais perplexo com a pouca atenção, importância e participação nessas lutas, até mesmo de companheir@s, – muitos dos quais estão neste momento batendo bumbos na Rio+20 – que sempre se mostram prontos para quaisquer lutas e subscrevem manifestos escritos até em papel higiênico, desde que sejam de outra natureza e que de preferência afetem os seus próprios umbigos.

É incrível a falta de atenção e de comprometimento das pessoas com esta temática. E chego até mesmo a me perguntar: Será que essa desatenção e falta de um maior comprometimento e participação tem algum fundamento genético?

Sinceramente, espero que não. E que de repente não me apareça algum geneticista maluco apresentando um novo “estudo realmente científico” defendendo tal tese, que, de certa forma, daria argumentos aos milhares (senão milhões) de imbecis que continuam acreditando na superioridade ariana. Uma tese, que como todos se lembram, fundamentou o nazismo e, que ainda hoje, é defendida por gente da pior qualidade, infelizmente, espalhada por todo o planeta.

Mas, independente desta tese estapafúrdia, o que me incomoda mesmo e cada vez mais, é constatar que para a grande maioria da população, sejam brancos, negros, pardos, amarelos e, até mesmo entre os descendentes das comunidades indígenas mais aculturadas, nossos indígenas e demais povos originários das Américas, e os gravíssimos problemas que eles enfrentam, parecem, dia após dia, ser cada vez mais invisíveis.

Talvez pelo fato de nossas populações indígenas serem cada vez menos numerosas, já que o genocídio iniciado quando eles eram milhões e os brancos “descobriram” e rebatizaram estas terras que hoje chamamos de Américas, continua. E que este fato nunca, com raríssimas exceções, é notícia na grande mídia.

Talvez ainda pelo fato de que por pura ignorância e falta de conhecimento da imensa maioria (e nossos currículos escolares tem muito a ver com isso) sobre a beleza e a sabedoria das culturas indígenas, outros tantos muitos de nós, continuam os achando “exóticos” ou mesmo “ETs”. E sobre isso reflito que, para eles, os exóticos e ETs somos nós, que viémos de terras distantes e invadimos suas terras, estupramos suas mulheres, impiedosamente matamos homens, mulheres, sejam eles adultos, jovens, velhos ou  crianças e suicidas que somos, destruímos a natureza, sem a qual, nem eles, nem nós sobreviveremos.

Então é isso. Estou mesmo perplexo. E vou parando por aqui. Acho que por hoje, nada mais vos tenho a dizer. Apenas pedindo que se possível reflitam um pouco sobre este tema e respondam para si mesmo a seguinte pergunta:

– Será que é mesmo “normal” e “civilizado” que em pleno século XXI e, quinhentos e tantos anos depois do tal “descobrimento” continuemos nos fingindo de mortos e de cegos diante do genocídio e da exploração que continua sendo imposta aos nossos povos originários?

De minha parte  já respondo. Para mim, não é não!

E é por isso que continuarei denunciando e lutando para por fim nessa vergonhosa situação. Fazendo pelo menos a minha parte. Por menor que ela seja e por menor que sejam os resultados que ela possa vir há alcançar. E é apenas por isso que hoje resolvi, mais uma vez, escrever sobre este tema.

Que vivam em paz os povos originários das Américas!

Que vivam em paz todos os povos e todas as etnias indígenas brasileiras e latino americanas!

Que vivam em paz todos os povos das florestas!

E que sua imensa sabedoria ilumine nossos caminhos!

E que a paz, a tolerância e o respeito a diversidade impere entre tod@s as pessoas e todos os povos por todo o planeta.

Por hora é o que teria a dizer….

Apenas um desabafo, que hoje julguei necessário.

Afinal, para mim vale a frase que inicia o manifesto acima referido:

Se uma voz é silenciada, milhões de gargantas irmãs devem substituí-la em um grito feroz. Chega!

João Baptista Pimentel Neto é jornalista, cineclubista, gestor e produtor cultural, militante das causas indígenas, presidente do CBC / Congresso Brasileiro de Cinema e acima de tudo “marv@do” por natureza.

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